Eu vi e escrevo a história de um homem sozinho, esse homem que lutou com todas as suas forças para superar os obstáculos da vida, eu dediquei um certo tempo para observá-lo, vi que esse homem corria todos os dias de sua vida, em seu rosto, o retrato de um certo desespero, talvez uma descontentação, ou até mesmo medo.
Eu percebi que esse homem corria como se um monstro sempre estivesse perseguindo-o, porém, em raros momentos esse homem olhava com certa tristeza em deixar esse monstro pra trás, fico confuso em tentar entender o que se passava naquela cabeça.O homem buscava algo que nunca encontrava, rostos e mais rostos ficando para trás, com o passar dos dias, gargalhadas surgiam para atormentá-lo. Seus olhos imploravam por piedade antes que o mesmo acabasse com a própria vida, suas lágrimas já não aquecia sua pele ao escorrer rosto abaixo, elas evaporavam no ar.
O homem pedia por ajuda, clamava por alguém que ouvisse seus gritos, o homem não queria devolver ao mundo o que ele recebeu, o pensamento vingativo e solitário não fazia parte da formação daquele que tanto luta por um dia de sol e de ar puro, mas é uma luta difícil, pois além de ter que lutar com tudo e todos à sua volta, o homem também tinha enfrentar dia-a-dia, aquele monstro que sempre o perseguia, o monstro que ele também se recusava a deixar pra trás.
Tal monstro atendia pelo nome de Passado, esse que com um único grito, conseguia separar o homem de sua alma, transformando seu corpo num recipiente vazio para que pensamentos dolorosos e vingativos tomassem posse, com o passar de suas unhas, arrancava a pele do já tão frágil homem, deixando-o para sofrer na prisão gelada dos corações frios, onde o vento forte arrancava-lhe a carne, arrancava-lhe o pouco sangue que restava para aquecer seu corpo dolorido e cheio de cicatrizes.
Ele precisava daquilo pra continuar à viver, o homem também se recusava a dar um fim à própria vida pois ele a valorizava muito, ele sabia que só de estar ali, ele já era um ser grandioso, logo, para ter o poder de suas memórias ele pretendia lutar sempre, pela eternidade se preciso, ou pelo menos enquanto seu corpo durasse.
E era isso mesmo que iria acontecer, pois Passado não podia ser derrotado, nem ser deixado para trás, muito menos esquecido, pois Passado fazia parte daquele homem, não só fazia como também era essencial para que o mesmo seguisse com sua vida adiante.
A luta mais uma vez chegava ao seu fim, mas apenas uma luta, das muitas outras que já tinham sido travadas e das muitas outras que ainda estavam pra acontecer. Então o homem baixava sua guarda e soltava suas armas, Passado por sua vez, devolvia ao homem sua pele e alma que lhe foram arrancados durante a intensa batalha, os dois se encaravam, palavra alguma se ouvia.
Ao fim do dia ambos se despediam, Passado dizia: "adeus nobre homem." o homem então respondia: "até logo experiência." Sim, Passado também era conhecido por "experiência" o mesmo era responsável por guardar consigo os tropeços do homem e era encarregado de proteger o mesmo para evitar se machucar mais com o mesmo erro.
Agora, mais aliviado o homem podia observar tudo à sua volta, ele enxergava que inúmeras outras batalhas como essa que ele acabou de sair acontecia ao mesmo tempo, todas aquelas pessoas que estavam à sua volta e que o negavam ajuda estavam à confrontar seus próprios inimigos também. Então o homem entendeu que não se tratava de negar ajuda ou uma imensa falta de compaixão com o próximo, muito pelo contrário, as pessoas também se encontravam no mesmo estado que ele e queria evitar a todo custo mais batalhas.
O homem percebeu também que não era só ele que estava sozinho, todos estávamos, cada qual com seu próprio inimigo à confrontar e com suas próprias cicatrizes para costurar, inclusive eu que sou só mais um vivendo sozinho em meio a tantos outros.
Num momento em que não me encontrava travando a minha batalha, assim como aquele homem após terminar a sua, pudera observar tudo aquilo e com um caderno e lápis em mãos eu registrava fielmente todo o acontecido, ao meu lado se encontrava experiência, a minha experiência, que com um pano umedecido em água morna, passava gentilmente sobre meu corpo na tentativa de estancar o sangramento que a mesma tinha causado na luta mais cedo.

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